Às vezes penso que meus olhos ainda estão fechados pela embriagues da noite anterior, mas eles não estão e dizer que sim seria uma mentira, ou talvez uma verdade inventada, como diria certa Clarice. Sabe, acho que quanto mais coisas fazemos menos conseguimos perceber o "tic-taquear" lento do relógio. Hoje abateu-se sobre mim uma profunda melancolia; eu ia usar a palavra tristeza, mas ela parece tão desgastada por coisas desimportantes que não soa mais adequada. Como dizia, hoje estou profundamente melancólica, eu sou uma pessoa difícil de se conviver; uns dias atrás uma amiga perguntou-me se eu acredito nas pessoas. Naquele momento não tive dúvidas, lógico que acredito, foi minha resposta, mas é que hoje essa resposta parece tão distante da verdade. Eu tenho um jeito estranho de acreditar porque de repente desacredito de tudo e num novo de repente volto a acreditar. Às vezes penso que devo ter uma dupla personalidade, deve ser o efeito de falar de mim mesma na terceira pessoa; como se eu fosse aquela que me olha de dentro do espelho ou que lê as palavras que minhas mãos escreveram, porque depois que escrevo nem parece mais que fui eu quem escreveu. Talvez eu não devesse mais assinar o que escrevo. Vai que a moça que mora dentro do espelho decide cobrar-me pelas palavras que ela pensa e minhas mãos escrevem. [...]
{Luciana Sousa}